Ana Sofia. O docente universitário que se disfarçava de mulher para perseguir homens
por Sílvia Caneco, Publicado em 15 de Junho de 2011 | Actualizado há 2 horas
Continua hoje o julgamento de Mário Mendes, o professor que se disfarçava de mulher para assediar outros homens. Uma história de perseguição com ameaças, carros funerários e coroas fúnebres
As encomendas chegam de meia em meia hora. Coroas fúnebres, enormes, com a mensagem "Repousa em paz". Vasco Pereira está no trabalho a ver o desfile de coroas e não percebe por que razão aparece simultaneamente como destinatário e remetente das flores que anunciam a morte. Nos dias anteriores, colegas de trabalho, vizinhos e familiares receberam cartas e emails anónimos, que inventavam ora que tinha sida, ora que era criminoso, ora que era homossexual.
O carro de Vasco foi riscado, as paredes do prédio pintadas. Os bombeiros apareciam dizendo ter sido chamados para uma emergência naquela morada, os carros funerários de várias agências batiam à porta. O telemóvel continuava a receber chamadas e mensagens com ameaças, apesar de ter trocado de número várias vezes. Quem ligava sabia onde estava, que carro conduzia, o que tinha vestido, as horas das rotinas diárias e o trajecto que fazia todos os dias entre casa e o trabalho. O pai, Domingos Pereira, militar, pediu a passagem à reserva e passou a acompanhar o filho 24 horas por dia, programando diariamente um percurso diferente entre o apartamento e o emprego. A mãe, Maria Pereira, entrou em depressão. Vasco tinha medo de sair à rua. Hoje, não só ainda tem todas as horas e datas na cabeça - de acontecimentos passados entre 2004 e 2008 - como sabe de cor as matrículas dos carros que o perseguiram.
O inferno de Vasco começou a 8 de Agosto de 2007. Regressou de uma viagem decidido a não atender mais chamadas de Ana Sofia Sá Magalhães, a loira de olhos azuis e sotaque de Cascais que tinha conhecido na internet. O telemóvel tinha dezenas de chamadas não atendidas e 120 mensagens escritas por ler. Vasco atendeu um telefonema de Francisco, o irmão da Ana com sotaque alentejano, e foi ameaçado por andar a ignorá-la e avisado de que ela iria suicidar-se "por sua causa". Farto da relação à distância, Vasco soltou "olhe, que se mate" e desligou o telemóvel. A partir daí, a perseguição que baralhava floristas, bombeiros e agências funerárias começou.
Só muito depois Vasco viria a saber que Ana Sofia nunca tinha existido. A mulher que faltava aos encontros, mas aparecia nos chats de internet com a fotografia de uma rapariga lindíssima com ar nórdico e lhe ligava a toda a hora, chegando mesmo a simular relações sexuais pelo telefone, era na verdade um homem: Mário Mendes, 40 anos, professor na Universidade de Évora a fazer um doutoramento em Paleontologia. Era Mário quem simulava a voz de duas pessoas - uma de mulher, quando encarnava a Ana, outra de homem, quando encarnava o suposto irmão Francisco. No final, quando os homens com quem mantinha as relações amorosas à distância se afastavam, vingava-se: devassava as suas vidas privadas, perseguia-os e chantageava-os. A paz, ameaçava ele, só viria quando reatassem a relação com Ana Sofia.
Durante meses, Mário Mendes conseguiu mesmo enganar os investigadores que ouviam as conversas telefónicas interceptadas. A perfeição da imitação de uma voz feminina era tal que até a equipa de investigação acreditou no envolvimento de uma mulher no caso.
A acusação Vasco não foi o único homem a ser aliciado e perseguido pelo professor disfarçado de mulher. Não se sabe ao certo quantas pessoas foram aliciadas e ameaçadas, mas sabe-se que há vítimas que nunca apresentaram queixa. Segundo a acusação, "pelo menos desde 2001 até Junho de 2008", o arguido "estabeleceu contactos virtuais, através da internet e telefonicamente com outros homens". Os escolhidos nos chats ou tinham terminado recentemente uma relação amorosa ou "passavam por períodos conturbados nas relações com as suas mulheres, namoradas ou companheiras".
O julgamento que amanhã continua no Campus da Justiça, em Lisboa, senta no banco dos réus outras nove pessoas: detectives privados, agentes da PSP, inspectores da Polícia Judiciária (PJ) e o funcionário de uma empresa telefónica. Mário Mendes contratava detectives privados, para que vigiassem e seguissem aqueles homens, os seus amigos e família. E, por sua vez, estes detectives pediam ajuda aos restantes arguidos neste processo para conhecerem detalhes da vida pessoal das vítimas e dos seus familiares. No final, o professor recebia relatórios detalhados, que incluíam fotografias: "Dizia que sabia todos os pormenores da nossa vida, e era verdade, sabia o que vestíamos, o que fazíamos, tudo. As ameaças aumentavam de tom, a dada altura disse-me ao telefone que tinha um exército de rafeiros para nos perseguir, chegou a ameaçar raptar o meu filho, tínhamos muito medo", contou o pai de Vasco ao colectivo de juízes.
O professor acusado dos crimes de denúncia caluniosa, gravações e fotografias ilícitas, coacção agravada na forma tentada, ameaça na forma continuada e perturbação da vida privada ainda não enfrentou os ofendidos em tribunal, devido a uma baixa médica.
Mário Mendes foi detido na casa do pai, em Évora. Um agente da PSP já o tinha surpreendido antes, quando este se preparava para despejar dois copos de tinta na fachada do prédio de Vasco, em Lisboa. Olhou-o nos olhos, mas quando o professor desatou a correr, o agente foi traído pelos sapatos de vela. Os atacadores soltaram-se e Mário Mendes fugiu.
O carro de Vasco foi riscado, as paredes do prédio pintadas. Os bombeiros apareciam dizendo ter sido chamados para uma emergência naquela morada, os carros funerários de várias agências batiam à porta. O telemóvel continuava a receber chamadas e mensagens com ameaças, apesar de ter trocado de número várias vezes. Quem ligava sabia onde estava, que carro conduzia, o que tinha vestido, as horas das rotinas diárias e o trajecto que fazia todos os dias entre casa e o trabalho. O pai, Domingos Pereira, militar, pediu a passagem à reserva e passou a acompanhar o filho 24 horas por dia, programando diariamente um percurso diferente entre o apartamento e o emprego. A mãe, Maria Pereira, entrou em depressão. Vasco tinha medo de sair à rua. Hoje, não só ainda tem todas as horas e datas na cabeça - de acontecimentos passados entre 2004 e 2008 - como sabe de cor as matrículas dos carros que o perseguiram.
O inferno de Vasco começou a 8 de Agosto de 2007. Regressou de uma viagem decidido a não atender mais chamadas de Ana Sofia Sá Magalhães, a loira de olhos azuis e sotaque de Cascais que tinha conhecido na internet. O telemóvel tinha dezenas de chamadas não atendidas e 120 mensagens escritas por ler. Vasco atendeu um telefonema de Francisco, o irmão da Ana com sotaque alentejano, e foi ameaçado por andar a ignorá-la e avisado de que ela iria suicidar-se "por sua causa". Farto da relação à distância, Vasco soltou "olhe, que se mate" e desligou o telemóvel. A partir daí, a perseguição que baralhava floristas, bombeiros e agências funerárias começou.
Só muito depois Vasco viria a saber que Ana Sofia nunca tinha existido. A mulher que faltava aos encontros, mas aparecia nos chats de internet com a fotografia de uma rapariga lindíssima com ar nórdico e lhe ligava a toda a hora, chegando mesmo a simular relações sexuais pelo telefone, era na verdade um homem: Mário Mendes, 40 anos, professor na Universidade de Évora a fazer um doutoramento em Paleontologia. Era Mário quem simulava a voz de duas pessoas - uma de mulher, quando encarnava a Ana, outra de homem, quando encarnava o suposto irmão Francisco. No final, quando os homens com quem mantinha as relações amorosas à distância se afastavam, vingava-se: devassava as suas vidas privadas, perseguia-os e chantageava-os. A paz, ameaçava ele, só viria quando reatassem a relação com Ana Sofia.
Durante meses, Mário Mendes conseguiu mesmo enganar os investigadores que ouviam as conversas telefónicas interceptadas. A perfeição da imitação de uma voz feminina era tal que até a equipa de investigação acreditou no envolvimento de uma mulher no caso.
A acusação Vasco não foi o único homem a ser aliciado e perseguido pelo professor disfarçado de mulher. Não se sabe ao certo quantas pessoas foram aliciadas e ameaçadas, mas sabe-se que há vítimas que nunca apresentaram queixa. Segundo a acusação, "pelo menos desde 2001 até Junho de 2008", o arguido "estabeleceu contactos virtuais, através da internet e telefonicamente com outros homens". Os escolhidos nos chats ou tinham terminado recentemente uma relação amorosa ou "passavam por períodos conturbados nas relações com as suas mulheres, namoradas ou companheiras".
O julgamento que amanhã continua no Campus da Justiça, em Lisboa, senta no banco dos réus outras nove pessoas: detectives privados, agentes da PSP, inspectores da Polícia Judiciária (PJ) e o funcionário de uma empresa telefónica. Mário Mendes contratava detectives privados, para que vigiassem e seguissem aqueles homens, os seus amigos e família. E, por sua vez, estes detectives pediam ajuda aos restantes arguidos neste processo para conhecerem detalhes da vida pessoal das vítimas e dos seus familiares. No final, o professor recebia relatórios detalhados, que incluíam fotografias: "Dizia que sabia todos os pormenores da nossa vida, e era verdade, sabia o que vestíamos, o que fazíamos, tudo. As ameaças aumentavam de tom, a dada altura disse-me ao telefone que tinha um exército de rafeiros para nos perseguir, chegou a ameaçar raptar o meu filho, tínhamos muito medo", contou o pai de Vasco ao colectivo de juízes.
O professor acusado dos crimes de denúncia caluniosa, gravações e fotografias ilícitas, coacção agravada na forma tentada, ameaça na forma continuada e perturbação da vida privada ainda não enfrentou os ofendidos em tribunal, devido a uma baixa médica.
Mário Mendes foi detido na casa do pai, em Évora. Um agente da PSP já o tinha surpreendido antes, quando este se preparava para despejar dois copos de tinta na fachada do prédio de Vasco, em Lisboa. Olhou-o nos olhos, mas quando o professor desatou a correr, o agente foi traído pelos sapatos de vela. Os atacadores soltaram-se e Mário Mendes fugiu.
Durante meses, até os investigadores acreditaram no envolvimento de uma mulher no caso
Há gente doente na INTERNET, muitas vezes são pessoas que na vida real aparentam ser abSolutamente convencionais e normais.
ATENÇÃO A ESTAS PESSOAS, SÃO DOENTES E PESSOAS DE MAL. PRESERVEM AS VOSSAS PRIVACIDADES!

